Moacir Santos - Ouro Negro

2001

MP / B/Universal - 2001 / Adventure Music - 2004

Produzido por Zé Nogueira e Mario Adnet
Produção executiva e administração Mariza Adnet
Assistência de produção em estúdio e captação de apoios Laura Carvalho
Arranjos originais Moacir Santos
Gravado nos estúdios AR, Rio de Janeiro em fevereiro e março de 2001
Engenheiros de produção Duda Mello e Marcelo Saboia
Engenheiro de mixagem Duda Mello
Assistente Leonardo Moreira
Gravações adicionais Armando Telles
Assistente Fernando Fishgold
Masterização Carlos Freitas - Estúdio Classic Master (SP)
Assistente Jade Pereira
Fotografia Jeferson Mello
Projeto Gráfico Pós Imagem Design
Designer Assistente Eduardo Varela

os depoimentos de Moacir Santos e Baden Powell para o livreto foram registrados e transcritos por Mario Adnet

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Só mesmo o Destino, com os vários nomes que tem, para transformar um negrinho do interior de Pernambuco, nascido menos de quatro décadas após a abolição da escravatura e órfão aos 3 anos de idade, em um dos músicos brasileiros mais reconhecidos, nacional e internacionalmente, em todos os tempos. Pois este é o resumo da história do maestro Moacir Santos, que aos 14 anos nem sabia ao certo sua idade nem a grafia de seu nome. E que, impulsionado por uma força estranha, veio vindo, do interior de Pernambuco para o Recife, do Recife para João Pessoa, de João Pessoa para o Rio de Janeiro, do Rio de Janeiro para Los Angeles e de Los Angeles para o mundo. 

Maestro, compositor, arranjador, compositor e saxofonista, Moacir José dos Santos nasceu em Flores do Pajeú, interior de Pernambuco, em julho de 1926. O ano era o mesmo da chegada ao mundo de Miles Davis, John Coltrane, Ray Brown, Melba Liston e do cubano Enrique Jorrín, criador do cha-cha-cha. E era o ano da estréia, no Rio, da Companhia Negra de Revistas e da morte, aos 74 anos, do trompetista, compositor e regente carioca Paulino Sacramento, um dos maiores músicos brasileiro de seu tempo.

Em 1926, o sertão pernambucano andava às voltas com o banditismo de Lampião e com as intenções revolucinárias da Coluna Prestes. E a capital da República via assistir ao nascimento das primeiras agremiações do samba.

Chegada a revolução varguista, o negrinho Moacir era entregue, em sua Pajeú, aos cuidados de uma família branca remediada, que lhe propiciou instrução ginasial e musical. Aos 14 anos, já dominando vários instrumentos de banda, além de banjo, violão e bandolim, fugiu de casa, em busca de novos horizontes - Serrânia, Arcoverde... Recife!

Em 1942 muda-se para o Crato, terra do Padre Cícero, de onde vai para Timbaúba e depois retorna a Recife, para tornar-se, ao tempo em que a influência americana começava a entrar de rijo no Brasil, o “saxofonista negro”, tipo Ben Webster, Coleman Hawkins, Lester Young, pelas mãos mercadológicas dos radialistas Antônio Maria e José Renato.

Depois desse período na Rádio Clube de Pernambuco, Moacir Santos muda-se para João Pessoa, onde chega a sargento-músico da Polícia Militar. Na PRI-4, Rádio Tabajara, é chamado a integrar o conjunto que vai substituir a legendária orquestra de Severino Araújo, de mudança para o Rio (onde brilha até hoje) e para onde Moacir também virá, em 1948, já casado com Cleonice.

Ingressando na Rádio Nacional como saxofonista, o artista freqüenta, também, a grande escola dos bailes, cumprindo o trajeto “banda de música-baile-rádio” feito pela esmagadora maioria dos instrumentistas, arranjadores, regentes e chefes de orquestra afro-descendentes, responsáveis pela linguagem que dominou a vida musical brasileira dos anos de 1930 aos de 1960, no disco, no rádio, no cinema, nos bailes, nos shows e na nascente televisão.

Mas, ao contrário de muitos de seus pares, Moacir Santos nunca descurou dos estudos. Forma-se em regência, estuda com mestres como Cláudio Santoro, Guerra-Peixe, H.J Koellreuter, de quem mais tarde seria assistente, e Ernst Kreneck, com quem navega pelos mares do decafonismo. E tudo isto ao mesmo tempo que trabalha duro, em teatro de revista, como diretor musical de gravadoras e como funcionário da maior emissora do rádio brasileiro de então.

Na Rádio Nacional - das radionovelas e dos programas de auditório - em 1951 Moacir Santos é promovido a arranjador e regente, ao lado de nomes como Radamés Gnatalli, Leo Peracchi, Lirio Panicalli etc, quase todos de origem italiana. E o reconhecimento de seu trabalho vem, efetivamente, na década seguinte, quando, no final de 1960, é eleito por seus colegas da Rádio, “o músico do ano”.

Naquela oportunidade, no célebre programa Gente que Brilha, o saudoso radialista Paulo Roberto, a ele se referia como “modesto menino pobre do estado de Pernambuco que, com esforço, dedicação e talento, tornou-se um dos mais brilhantes maestros da grande equipe de músicos da Rádio Nacional”. 

Paralelamente ao trabalho no rádio, o maestro compunha trilhas sonoras para filmes como Seara Vermelha, Ganga Zumba, Os Fuzis e O Beijo, representantes do chamado “cinema novo” brasileiro. 

E, depois de aperfeiçoar-se com os mestres, passava a transmitir seus conhecimentos a músicos do porte de Paulo Moura, Sérgio Mendes, João Donato, Raul de Souza, Doum Romão, Bola Sete, Roberto Menescal, Geraldo Vespar, Chiquito Braga, Dori Caymmi, entre muitos outros. A bossa-nova o reconhecia como uma espécie de patrono! 

Mas para Moacir Santos, seu trabalho mais importante feito no Brasil foi a trilha sonora do filme Amor no Pacífico (Love in the Pacific), em cuja gravação teve a seu dispor uma grande orquestra composta por 65 excelentes músicos. E foi esse traballho que lhe abriu o mercado internacional e determinou sua transferência para os Estados Unidos, em 1967. Nesse país, gravou discos solo, um deles indicado para o Grammy, deu aulas e compôs trilhas para cinema, construindo uma sólida reputação como compositor, arranjador e docente, membro que é da Associação de Professores de Música da Califórnia. 

Segundo a crítica mais abalizada, Moacir Santos produziu, nas décadas de 1960 e 70, a música popular mais sofisticada e ao mesmo tempo mais enraizada nas tradições afro-brasileiras. E essa impressionante trajetória, do músico e do homem, desmente um vaticínio e confirma uma assertiva. 

O vaticínio, felizmente desmentido, veio de alguém que lhe disse, aos nove anos de idade, que “quem já toca de ouvido nunca vai aprender a tocar por música”. E a assertiva é do poeta haitiano Jacques-Stephen Alexis, que um dia afirmou: “A Africa não deixa em paz o negro, de qualquer país que seja, qualquer que seja o lugar de onde venha e para onde vá”. 

Bendita obsessão!

Nei Lopes, Vila Isabel, março, 2001