Para Gershwin e Jobim - 2 kites

2001

Indie Records

Direção musical, arranjos e regências Mario Adnet
Produção executiva Mariza Adnet
Gravado e mixado em Pro-Tools 24 Mix, no Estúdio Verde (Rio de Janeiro) entre julho e setembro de 2000
Técnico de gravação e mixagem Rodrigo Matos e Wanderley Loureiro
Supervisão de mixagem Cláudio Guimarães
Masterização e edição Cláudio Guimarães (Combo Music)
Direção de arte, fotos e projeto gráfico Marcão Godoi
Captação de recursos Z5 Produções - Artemídia

‹ Voltar para discografia

Compre aqui o CD

UMA “FUSION” ENTRE DOIS GÊNIOS (Ruy Castro)

Os dois aprenderam piano por acaso. O pai de George Gershwin comprara um piano para que Ira, o filho mais velho, estudasse. Mas Ira queria ser poeta e não se interessou.

Então George abriu o piano e já saiu tocando. Com Antonio Carlos Jobim, a mesma coisa: sua mãe alugara um piano para que Helena, irmã mais nova de Tom, aprendesse a tocar. Mas Helena queria ser escritora e quem se fascinou pelo instrumento foi Tom. E ainda há quem duvide de que o destino existe e funciona full-time.

Gershwin e Jobim deixaram cerca de 400 canções cada, das quais pelo menos 100 terão uma linda e longa sobrevida no decorrer deste milênio. Nossos tataranetos ainda ouvirão “Someone to watch over me”, “Fascinating rhythm” e “But not for me”, ou “Samba do avião”, “Desafinado” e “Valsa do Porto das Caixas”, com a mesma emoção com que ouvimos hoje, décadas depois de compostas – talvez porque a música que faziam se destinasse a promover a beleza, a inteligência e a sensibilidade, não a feiúra, a burrice e o embrutecimento. O eterno existe, e Gershwin e Jobim são a prova.

Musicalmente completos, os dois usaram sua sofisticação para fundir a tradição européia e a cultura negra urbana, do que resultou uma terceira força: com os ecos que vinham do Harlem, Gershwin fez a “Rapsody in blue”; Tom também subiu o morro (da Catacumba), é verdade que para namorar, mas por isso pôde fazer Orfeu da Conceição – na sua fase madura, partiu da Bossa Nova para experimentações com ritmos das grotas brasileiras, assim como Gershwin foi fazer Porgy & Bess. Os dois transformaram a matéria bruta do “povo” em produtos acabados, de valor universal e perene.

Agora, coube ao compositor, violonista, arranjador e cantor Mario Adnet explorar o paralelismo desses universos melódicos, harmônicos e rítmicos. Acordes lançados ao espaço por Gershwin encaixam-se, 70 anos depois, nas obras primas de Jobim. De repente, é a “Rapsody in blue” que se transfigura no “Samba do avião”. Ou, então, Adnet incorpora “Surfboard” ao repertório dos piano-rolls dos anos 20, assim como “But not for me” ganha um sotaque Bossa Nova e o choro e o ragtime se misturam em “Bate-boca”. E que bom que Adnet se lembrou de duas grandes canções da última fase jobiniana: “Chansong” e “Two Kites”. A seu lado nesta viagem no tempo, Paulo Jobim, a divina Joyce e a revelação Joana Adnet.

Na próxima vez em que você ouvir falar de “fusion”, já pode esquecer o significado daninho que essa palavra ganhou nos anos 70 com o estupro do jazz pelo rock. Mario Adnet promoveu a “fusion” dos sonhos de todos nós: entre as sensibilidades de dois criadores imortais.

Ruy Castro é escritor, autor de, entre outros, Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova e Ela é carioca - Uma enciclopédia de Ipanema (Companhia das Letras)