Rio Carioca

2002

Produtor de estúdio Marcos Nimchter
Produtora Executiva Mariza Adnet
Assistente Joana Adnet
Gravado e Mixado no Estúdio AR (Rio de Janeiro) de 1 a 22 de outubro de 2001
Engenheiro de Gravação e Mixagem Duda Mello
Assistentes Theo Marés e Luizão Dantas
Masterização Carlos Freitas (Classic Master)
Assistente Jade Pereira
Fotografia Milton Montenegro
Direção de Arte e Projeto Gráfico Pós Imagem Design

Cordas

Violinos Giancarlo Poreschi, Bernardo Bessler, Michel Bessler, Antonella Poreschi, José Alve da Silva, João Daltro de Almeida, Walter Haack e Paschoal Perola
Violas Marie Christine Springuel Bessler e Jesuína Passardo
Cellos Hugo Pager e Yura Ronevsky

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A começar pelo título, “Rio Carioca”, e passando pelo nome do autor, transformado num trocadilho gráfico, Mario, tudo nesse CD está banhado pelo nosso mito fundador, origem da vocação musical do Rio de Janeiro: a água.

Tom Jobim disse que herdara dos tamoios o gosto pela música e pelo banho de rio. Nesse disco de Mario Adnet, a melhor herança é também o que ele vai buscar na nossa “primeira grande fonte potável”, ou seja, o que ele atribui aos primeiros cariocas e que pode ser atribuído a seu próprio trabalho: a “extrema musicalidade e a voz suave”. 

Zuenir Ventura, carioca de Minas

Quando os portugueses se estabeleceram no Rio de Janeiro, em 1504, acamparam na Praia do Flamengo, às margens de um rio de águas claras que ali desembocava. Construiram uma casa de pedra, que foi logo chamada, pelos nativos, de Kari-oca (casa de branco). Mais tarde, o rio cristalino, que viria a ser a principal fonte de água potável da cidade antes do Guandú, passou a se chamar também Carioca. E como cariocas, ficaram conhecidos os novos habitantes da terra e seus descendentes nascidos aqui, frutos das primeiras misturas… Em 1557, um francês, Jean de Lery, que veio se juntar à colônia fundada por Villegagnon na baía de Guanabara, realizou a primeira reportagem musical no novo mundo. Impressionado com o talento musical dos Tamoios, descreveu em detalhes suas danças e cantos, a ponto de grafar as melodias em partitura. Segundo a lenda, esse fenômeno estaria ligado às propriedades mágicas da água do Rio Carioca, que “ afinava e dava voz suave nos músicos”. Certamente essa herança ancestral de musicalidade prenunciava o que iria se constituir mais tarde como manifestação cultural natural dos cariocas. 

Sou um músico carioca legítimo, ou seja, descendente de franceses, portugueses, espanhóis, russos, e provavelmente de ciganos, africanos, índios e capixabas. Sendo um apaixonado pela minha cidade, repleta de cariocas de toda parte do Brasil e do mundo, adoro a música “legítima” da terra, ou seja, de lundú à maxixe, da polca ao choro, do samba à bossa nova, entre outras mil sortes de mistura. Música, pra mim, se divide em: as que gosto e as que não gosto, mas não sou muito chegado a demarcação de fronteiras, por exemplo, entre erudito e popular. Como nasci na primavera de 1957, fui fortemente afetado pela floração musical da época. Era um novo “gênero” que passava no liquidificador as modernas coisas do passado, como os eternos sambas de Noel, Geraldo Pereira e tantos outros, regados à linguagem jazzística encontrada no repertório de Johnny (Alf), Dick (Farney) e Lúcio (Alves), pitadas de Chet Baker, Stan Kenton, ou seja, como sempre, coisas de dentro misturadas às de fora. Até hoje fico feliz e surpreso quando descubro a genialidade de um Ismael Neto, carioca de Belém do Pará, morto prematuramente em 1956, e como ele foi um dos que anteciparam a novidade que viria a se consolidar mais tarde, que teria em Antonio Carlos Jobim, carioca de família gaúcha, e João Gilberto, carioca de Juazeiro, seus maiores expoentes. 

A escolha do repertório do CD não foi difícil, uma vez que a proposta é a minha visão do Rio. Parte dele é formado por canções de outros compositores, que já fazem parte da minha vida, e a outra composições próprias, algumas instrumentais de épocas diferentes, mas que não são datadas. 

A primeira, 'Cidade mulher', foi composta, letra e música, por Noel Rosa em 1936 para o filme homônimo de Humberto Mauro. Pouco gravada, é tão rica de música e imagens que achei um prato cheio para escrever o arranjo. 

'A dona do lugar' é uma produção recente, um samba torto, com letra do Bernardo Vilhena, que ficou parecido com Geraldo Pereira e João Gilberto. 

Em 'Só danço samba', de Tom e Vinicius, a bossa nova, o samba com os metais em clima de gafieira e o choro convivem muito bem, obrigado.

'Moças do mar', mais uma com letra do Bernardo Vilhena, é só clima, dedicada aos grandes Dick Farney e Lúcio Alves.

'Marca na parede' foi um achado especial pra mim porque foi composta alguns anos antes da bossa nova pelo Ismael Neto, líder dos Cariocas, autor da música de ‘Valsa de uma cidade’. Ismael era um talento como compositor, arranjador de vozes e, justiça seja feita, abriu a cabeça de vários futuros grandes compositores com a sua concepção harmônica avançada para a época. João Gilberto e Tom Jobim foram seus maiores admiradores.

Ismael morreu em 1956, aos 31 anos.

'Meu carnaval' foi gravada em 94 em um disco da Lisa Ono, carioca de Tóquio, Esperança (Nanã/BMG-Japão). Achei oportuno fazer a minha versão. É um carnavalzinho zen… 

'Águas de um Rio', essa é a mais nova, com letra do Lysias Enio. É uma singela declaração de amor ao rio de sorrir, ao Rio Carioca e ao Rio de Janeiro, construída em volta de um padrão rítmico no violão.

'Sete rios', um samba quebrado, com compassos em 7/4, composto em 1975, é a que tem mais idade mas ao mesmo tempo mantém o frescor dos meus 17 anos.

'Um americano no samba' faz parte da nova fornada e uma nova parceria com o Lysias Enio, irmão do João Donato, carioca do Acre, autor de pérolas como 'Até Quem Sabe'.

'Meu bom Luizão' é dedicada a meu grande amigo baixista Luizão Maia, que tocou com toda a MPB, de A a Z. Foi composta em 1989 como um presente de aniversário. 

'Circular', música do Claudio Nucci, carioca de Jundiaí, composta, segundo o autor, em minha homenagem, em 1978, época em que tínhamos uma banda juntos. É a cara do Rio. 

'Largo da Carioca' foi feita em 1977 e resgatada agora. É a “porção Moacir Santos” que já existia dentro de mim e eu não sabia…

Mario Adnet